sábado, 16 de agosto de 2008

A fé e a ciência de Galileu



(Este texto reproduz trechos da carta enviada por Galileu a seu amigo o padre Benedito Castelli)
Segundo Galileu, a Bíblia e a investigação científica sobre a natureza não podem se contradizer, já que tanto a natureza quanto a bíblia têm origem no verbo divino. No entanto, como explicar os recorrentes conflitos entre a pesquisa científica e a palavra bíblica? Para Galileu eles são frutos de um equívoco, pois, "embora as Escrituras não possam se enganar, os seus intérpretes podem”. (Galileu) E isto acontece se quisermos ler a bíblia sempre literalmente, cometendo, desse modo, diz o cientista, inúmeras blasfêmias, como por exemplo: “atribuir a Deus sensações e emoções físicas típicas do homem, como ódio, rancor, além do esquecimento das coisas passadas e até a ignorância de coisas futuras”. Para Galileu, a bíblia foi escrita em uma linguagem adaptada e simbólica, para ser acessível aos conhecimentos rudes do povo da época. A natureza, ao contrário, este livro que Deus escreveu diretamente, sem o auxílio e a “tradução” dos homens, deve ser “lida” literalmente através de experimentos racionais.
Por essas razões, diz Galileu, devemos impedir que certos intérpretes da palavra divina
digam que a bíblia ensina tudo o que há para se saber no universo. Não apenas porque não temos certeza sobre quais intérpretes foram ou não inspirados por Deus, mas por que Deus não nos daria bens como a inteligência e os sentidos para nós abandoná-los antes de aprender a ler o grande livro que Ele mesmo escreveu: a natureza. É evidente que o objetivo central das Sagradas escrituras é nos guiar para a salvação de nossa alma (o que não é assunto para a ciência, pois está para além dos nossos sentidos), e não explicar os eventos naturais, o que se nota pelo fato Delas abordarem este assunto de modo irrelevante e fragmentário (nem o nome dos planetas lá encontramos). A investigação científica portanto deve nos ajudar a complementar a mensagem da bíblia (devidamente interpretada, separando o que é literal do que é apenas simbólico e metafórico). E assim, lendo os dois livros de Deus (a bíblia e a natureza) reverenciar sua obra completa.
O método científico proposto por Galileu tem por objetivo impedir que nos equivoquemos na interpretação do livro da natureza. Para isso, é necessário estudar prioritariamente as qualidades principais (ou objetivas) da natureza (o movimento, a grandeza, a forma, a quantidade; qualidades iguais para todos), e não confundi-las com as qualidades secundárias ou subjetivas(impressões que variam dependendo de cada pessoa, de cada animal, e da situação em que ela percebe as coisas: a cor, o sabor, o som, o odor etc.). Como se pode notar, as qualidades principais são aquelas que podem ser descritas pela matemática, ou melhor, pela física-matemática. Diz Galileu que estas qualidades subjetivas ou secundárias não são propriedades das coisas, mas sim meros efeitos dos estímulos que as qualidades objetivas ou principais (estas sim das coisas)provocam em nós. Ou seja, as qualidades secundárias só existem em quem percebe, não no mundo. E ele completa:”os corpos externos com suas formas, movimentos etc. Provocam em sons, cores e sabores etc., no entanto, se eliminarmos ouvidos, línguas e narizes permanecem no mundo aquelas qualidades principais, mas desaparecem estas qualidades secundárias”. Mas como separar as qualidades subjetivas das objetivas, afinal de contas, os homens só conseguem percebê-las misturadas em sua experiência cotidiana? Segundo Galileu, o único caminho é o experimento científico em laboratório, quando tentamos responder a questões precisas retiradas da observação, com auxílio de hipóteses e testes.
O estudo das qualidades secundárias ou subjetivas precisará esperar o aparecimento, sobretudo, das ciências humanas.

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